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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Uma Guerra pouco lembrada, mas nunca esquecida

Escola de Ensino Médio Professor Roberto Grant 

Professora: Elizete Mainardes Appel

Disciplina: Língua Portuguesa e Literatura

Série: 3ª06                                           

Data: 27/03/2015

Por: Gabriele Tschoeke dos Santos,

            Jordana Cech,

            Letícia Liebl



Atenção! O texto abaixo foi uma criação a partir de pesquisas a respeito do Contestado. Avô, neto e jornalista são personagens ficcionais nesta entrevista.


Bom dia caros leitores e amantes da história,


Hoje trago a vocês uma reportagem que retrata um momento histórico de grande importância regional e nacional, mas que, por diversas vezes, foi deixado de lado da história do Brasil. 

Para contar melhor esse fato, entrevistei Miguel Francisco Neto, neto de um caboclo que lutou na Guerra do Contestado(1912-1915). Miguel relatou as dificuldades que seu avô e os demais caboclos enfrentaram com a falta de apoio das autoridades para com a população cabocla das regiões envolvidas no conflito, já que na região onde seu avô, Miguel Francisco (1892-1984) permaneceu durante a Guerra era completamente abandonada à própria sorte pelos governantes da época, por se tratar de uma região interiorana que não possuía população significativamente participante da economia do país. 

Leia abaixo a entrevista completa:

Sabe-se que a região onde se deu a Guerra do Contestado era um território desconhecido pelas autoridades e habitada pelos sertanejos. Com base nos relatos de seu avô Miguel Francisco, você poderia descrever um pouco mais sobre a região do Contestado naquela época?

“Pelos relatos de meu avô, o imenso sertão, abandonado pelos governantes, foi progressivamente ocupado por tribos de diferentes etnias indígenas e por seus descendentes mestiços. A riqueza da região era a erva-mate e a madeira. Esse território não era somente habitado pelos sertanejos que eram caracterizados como posseiros, mas também pelos fazendeiros-coronéis que recebiam terras da Coroa portuguesa para desenvolver a região. Os fazendeiros eram responsáveis também pela política, tinham patente militar e poder de vida e morte dentro do limite de suas posses. Localizada entre os estados do Paraná e Santa Catarina, essa região foi marcada por diversas disputas.”

A população cabocla formada por sobreviventes da Revolução Farroupilha, da Guerra do Paraguai, da Revolução Federalista e mestiços vivia em precárias condições de vida. Conte-nos mais sobre o cotidiano da população sertaneja naquele período.

“Como meu avô contava, a população cabocla que era esquecida à própria sorte pelos governantes. Tinha condições de vida precárias pelo fato de viverem adentrados na mata virgem, não tinham assistência básica como, educação e saúde, nem contato com igrejas, fazendo com que se tornassem supersticiosos e sem esperança, buscando conforto com curandeiros, peregrinos e profetas que viviam no território. Inclusive, três desses curandeiros foram considerados homens santos e seguidos pela população local. A população sertaneja vivia uma economia de subsistência baseada na caça, na coleta, no extrativismo e numa agricultura rudimentar”.

Sabendo que o estopim para que esse combate começasse foi a morte do Monge José Maria, que naquele tempo era considerado Santo por caboclos do sertão catarinense, cite-nos mais alguns motivos para que houvesse a Guerra.

“Segundo meu avô, a construção de uma estrada de ferro que interligava o sudeste ao sul do país fez com que muitos caboclos fossem expulsos de suas terras, ocasionando uma revolta geral dos sertanejos que já enfrentavam muitas dificuldades, pois eram pobres e nem sempre tinham alimentos suficientes. A companhia que estava construindo a estrada tinha seus próprios homens contratados para combater os sertanejos revoltosos. Outro fator como você já havia comentado, foi a morte do Monge José Maria por militares, fazendo com que muitos sertanejos se revoltassem contra o governo e iniciassem essa guerra civil. Não podemos esquecer ainda da disputa de territórios entre Paraná e Santa Catarina. Com a Guerra do Contestado podemos notar como os políticos e os governos tratavam as questões sociais no início da República. Os interesses financeiros de grandes empresas e proprietários rurais ficavam sempre acima das necessidades da população mais pobre. Não havia espaço para a tentativa de solucionar os conflitos com negociação. Quando havia organização daqueles que eram injustiçados, as forças oficiais, com apoio dos coronéis, combatiam os movimentos com repressão e força militar”.
Por Laila Lima.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Contestado - uma guerra sem muitos registros literários

Projeto Contestado
Língua Portuguesa e Literatura


Causos e Contos do Contestado: criando uma literatura de ficção com contexto histórico local


Por: Professora Elizete Mainardes Appel




Durante a primeira quinzena de março, os meus queridos alunos das terceiras séries do período matutino estudaram o Pré-modernismo Brasileiro. Viram os principais autores, suas antologias, o Contexto Histórico, incluindo-se Guerras Messiânicas e, entre elas, o Contestado.



Como esse conflito é pouco conhecido nacionalmente, e até mesmo por parte dos catarinenses que moram fora das áreas diretamente envolvidas, a princípio os alunos pesquisaram sobre a Guerra do Contestado.



Então, na penúltima semana do mês de março estiveram envolvidos na elaboração de contos e crônicas em que se evidenciasse o contexto histórico do Contestado, bem como a geografia e os tipos da época.



Não era necessário evidenciar a batalha propriamente dita e a criatividade deveria ser o norteador dessas histórias fictícias, porém o mais verossímeis possível.



O resultado é surpreendente e você poderá conferir os textos que serão postados aqui.




Links para os textos produzidos:

3ª01

3ª02

3ª03

3ª04
Cartas em mãos erradas

3ª05

Contestar ou não contestar, eis a questão

A ameaça cabocla

Baianinho: A história

3ª06

Relato da Guerra do Contestado


Uma Guerra pouco lembrada, mas nunca esquecida



Fotos:

Por Osvaldo Rodrigues da Veiga: Contestar ou não contestar, eis a questão

Por: Osvaldo Rodrigues da Veiga (3ª05-RG2015)


Contestar ou não contestar, eis a questão


Há muito tempo, no norte de Santa Catarina, quando os sertanejos nem pensavam em entrar na faculdade, uma empresa americana veio construir a estrada de ferro que ligaria Rio Grande do Sul a São Paulo. A obra andou em ritmo de estádio de copa e, depois de longos anos, foi concluída.


Até aí tudo beleza, mas o governo que não era aquele sonhado pelo povo, tentou dar aquele calote na empresa que não ficou nada feliz da vida. Após intensas negociações, o governo decidiu ceder o equivalente a 15.000 metros de terras, que se estendiam ao longo da ferrovia e deveriam ser colonizados pelos povos estrangeiros.


Mas nossa amiga empresa pensou "para que eu vou colonizar uma área com tantos recursos naturais, em vez de explorá-la?”. E assim se fez, ao lado da ferrovia, uma madeireira americana; eles fizeram a Marina Silva e o Greenpeace se remexer no caixão antes mesmo de existirem. Mas havia um problema, já haviam pessoas morando por lá. Eles não tinham carros, não tinham teto, e se ficar por ali, já sabe, né?...


Daí em diante foi só tiro, porrada e bomba. De um lado a multinacional, querendo tomar as terras, e do outro os sertanejos, querendo manter-se onde já estavam. As investidas contra as resistências eram fortes, mas os sertanejos eram todos “cabra macho”, não arredavam o pé.
Os conflitos estavam cada vez mais intensos, quando uma figura ressurgiu para dar esperanças aos sertanejos: um monge que eles acreditavam ser o mesmo que vagou pela região 20 anos antes, que eles acreditavam ser o que vagou 40 anos antes. Há boatos de que isso aconteceu por que nosso monge 3 em 1 utilizava-se das ervas e das coisas que a natureza dá para curar e deixar a rave mais louca, assim como fizeram os outros dois.
A partir daí as batalhas ficaram mais elaboradas, o monge era apelão e sempre chegava mais louco que o Gandalf montado em um Unipandra, liderando os sertanejos e usando seu cajado desnecessariamente grande, sem dó nem piedade.
A empresa, que estava de saco cheio de apanhar pros donos do banhado, foi pedir ajuda ao governo que, como quem não quer nada, mandou o bonde todo para auxiliar os americanos malvados em sua cruzada opressora em busca do lucro burguês patriarcal capitalista machista fascista neonazista.
Os sertanejos que agora viviam de sua arte das coisas que a natureza dá, liderados pelo monge hippie, se encontraram em maus lençóis. Afinal, como era possível combater um grande exército com armas, aviões, armas e tudo mais, utilizando apenas as flores e a paz ?
Pelo que se seguiu, não era nada possível, o exército estava ganhando uma batalha após a outra, eles avançavam com a fúria de mil africanos correndo do Ebola, e a resistência estava se tornando inútil.
Em um dia como qualquer outro, com muito sangue e morte, o monge veio a ser pego fora de posição. Era um monge que como eu, tinha cabelo de mendigo; girava o mundo, mas acabou fazendo a guerra do Contestado. Cabelos longos não usa mais, não ouve mais suas rezas e sim, um instrumento que sempre dá a mesma nota “ratátátá”. Não vê amigos, não vê garotas, só gente morta caindo ao chão, ao seu cajado não voltará, pois está morto no Contestado.
Os sertanejos lutaram bravamente, sem seu monge, até o último homem cair ao chão, tudo isso para que um americano pudesse tomar um whisky 12 years em sua mansão em Washington. A vida não é justa e, às vezes, o destino é incontestável.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Baianinho: A história

E.E.M.Professor Roberto Grant
Professora Elizete Mainardes Appel
Disciplina: Língua Portuguesa
27/03/2015
Série: 3º05

Por: Christian José Saidok,Letícia Emillyn da Cunha,Matheus Soares,Natalia Arnold e Vitor Mizael Marés Heleodoro





1900, neste ano nasce uma das figuras que teria uma das histórias menos conhecidas do Contestado, mas não menos emocionante. Seu nome era Mathias Silveira mais conhecido como Baianinho. Sua história se passa na pacata cidade de Caçador, onde nasceu,viveu e morreu.
Sua infância foi marcada por decepções, sua mãe morreu enquanto ele ainda era bem criança, e seu pai era alcoólatra fazendo com que ele tivesse que cuidar do irmão mais novo.

Baianinho: A história
Com seus 12 anos conheceu a donzela que iria mudar sua vida, a partir daí começa nossa história dentro do Contestado.
12 de outubro de 1910, um dia comum como todos os outros para Baianinho, acordou cedo, cuidou do irmão, fez as coisas de casa, e no fim do dia, como acontecia normalmente, ele pegou seu burro e foi para o centro fazer compras para sua humilde residência. Chegando lá comprou alguns mantimentos na mercearia de seu Mané. Saindo da mercearia acabou se deparando com uma menina. Não era qualquer menina, era a menina de sua vida. Ela estava em cima da carroça de seu pai, o comandante João Gualberto Gomes de Sá Filho. Assim que a viu seu coração disparou de forma impressionante. Foi paixão à primeira vista.
Passado algum tempo, Baianinho precisava saber quem era aquela moça. Resolveu, então, trabalhar para o sargento Cristiano José de Mesquita, que era um dos sargentos mais jovens da época, com a intenção de descobrir algo sobre sua amada. Cristiano resolveu aceitar o pedido do pobre garoto e deu um lugar para ele trabalhar em seu jardim.
Logo em seu primeiro dia de trabalho, Baianinho conheceu uma empregada, seu nome era Leocádia Emillyana da Cunha. Baianinho trabalhou lá por anos. Até que um dia...


22 de setembro de 1912
Como vais Baianinho ? O que vai levar hoje ?
Olá seu Mané, hoje apenas vou levar um pouco de erva mate.
Desculpe Baianinho, mas acabou a erva por causo do embargo que está ocorrendo.
Tudo bem, então hoje não levarei nada.
Saindo dali, Baianinho foi encontrar seu conhecido José Maria de Santo Agostinho, um dos líderes na revolução que estava prestes a ocorrer. José Maria falou muito sobre suas causas fazendo Baianinho, com apenas seus 12 anos, querer ajudá-lo. Após isso Baianinho foi em direção à várzea, local onde se encontrava com Nina Arnolda, menina que conheceu há algum tempo e acabaram se apaixonando. Eles se encontravam escondidos pois Nina era uma donzela de classe diferente de Baianinho não passava de um caboclo qualquer. Nesse encontro ambos tinham más notícias.
Baianinho,tenho algo muito triste para te dizer. Vou casar com Cristiano José de Mesquita.
Mas como? Ele é meu chefe, e eu odeio ele. Você não pode fazer isso.
Desculpe Baianinho mas meu pai me arranjou para ele.
Por que você não confessa nosso caso para ele ?
Ele jamais aceitaria alguém como você na família. Você não entende, ninguém entenderia nosso caso.
Baianinho, após o ocorrido, lamentou muito e chorou.
Nina, também tenho algo a te dizer
O quê ?
Fui convocado para a guerra junto dos rebeldes. Isso pode ser ruim para você, mas preciso fazer isso e juro que no fim vou acabar com meu chefe Cristiano.
Com essa conversa os dois ficaram muito mal, mas sabiam que eram obrigados a aceitar.
No passar dos dias a situação foi piorando e estava cada vez mais próximo um conflito armado na área do Contestado. A briga por regiões era grande e as forças armadas começaram a se preparar.
Baianinho participou de alguns conflitos mas sempre saindo ileso. Enquanto isso estava sendo arranjado o casamento de Nina Arnolda com o Sargento Cristiano. O casamento foi marcado para dia 14 de abril de 1913. Baianinho, sabendo desta notícia, pediu ajuda para seu colega Vitorino Potiguara para, um dia antes do casório, raptar Nina.
Neste período ouve uma trégua na guerra, assim podendo se fazer uma baita de uma festa.
Chegando o dia anterior ao casamento, Vitorino e Baianinho foram em direção a casa do Sargento. Vitorino chamou o sargento para uma conversa que serviria de distração para Baianinho fugir com a amada. Baianinho obteve sucesso, porém jamais imaginava que o sargento teria pago para Vitorino falar o que sabia. Eles fugiram para Lebon Régis, local marcado por sua devastação durante a guerra.
Nina e Baianinho passaram um certo período juntos nessa cidade. Até que um dia...
Baianinho que barulho foi esse ?
Eu não sei Nina. Vou dar uma olhada.
Baianinho, saindo do barraco em que estavam, se deparou com um grupo de soldados liderado pelo Sargento Cristiano. Eles o prenderam e fizeram questão de chamar Nina para ver a ocasião.
Nina sua vagabunda, venha aqui e veja o que vai acontecer com esse lixo.
Nina com seus olhos cheio de lágrimas saiu e falou:
Me matem! Eu sou a culpada! Ele não merece sofrer.
E o Sargento Cristiano:
Nina, suas palavras não o salvarão, nem salvarão você. Você tinha um compromisso comigo e o descumpriu, e ele é um piazinho de merda que acha que pode roubar você de mim.
O sargento, após falar isso, sacou sua arma e atirou em Baianinho várias vezes até sua morte. Nina, observando a situação, roubou uma faca de um dos soldados e falou:
Se não vou viver com ele, com você jamais será.
Nina pegou a faca e enfiou-a em seu coração.

terça-feira, 12 de maio de 2015

A AMEAÇA CABOCLA

E. E. M. Professor Roberto Grant
Professora: Elizete Mainardes Appel
Disciplina: Língua Portuguesa e Literatura
Data: 26/03/2015
Série: 3ª 05

Por: Julia Machado Rocha, Luis Gustavo Hüttl, Mailla Brito



No sul do Brasil, norte de Santa Catarina, na cidade de Mafra, localizava-se um vilarejo, um lugar de vasto campo verde, muitas árvores, plantações e criações de animais por todos os lados. Este lugar era beirado pelo Rio Negro, e próximo a ele havia uma ferrovia, a qual movimentava os negócios do local.
A população que habitava esse lugar eram, em sua grande maioria, caboclos e alguns fazendeiros também. Entre esses habitantes, se destacava José Maria, um caboclo baixo, magro, que fazia questão de viver de forma humilde. Usava calças curtas e camisa rasgada. Andava descalço e sua pele era escura por causa do sol. Ele era casado com Matilda, uma mulher alta, de pele bronzeada, que vivia com um vestido branco e dourado, encoberto pela poeira da vida no sertão.
Diferente da população humilde, vivia por lá um membro do estado, chamado Valdomiro. Um homem rico, alto e forte, que exalava poder em seu jeito de viver. Ele era casado com Vera, uma mulher linda, morena e dona de um sorriso encantador. Ela tinha tudo o que qualquer mulher sonha em ter devido à soberania de seu companheiro.
José Maria era proprietário de um imenso terreno, que continha as melhores terras da região. Essas terras despertavam muito o interesse do Estado que estava tomando grandes pedaços de terra dos caboclos e fazendeiros que viviam ali. Como Valdomiro era o representante do Estado naquela região e estava interessado nas terras de José Maria, coube a ele tomá-las à força. José ficou revoltado por perder suas terras e ao ver que seus amigos estavam passando pelo mesmo, resolveu organizar uma manifestação em que participariam caboclos e fazendeiros da região a fim de exigir o fim da exploração do Estado sobre os mesmos.
As manifestações começaram e o Estado não conseguia fazer com que os caboclos retrocedessem, o único jeito era apelar para a violência. E foi assim que aconteceu. O Estado buscou conter os manifestantes na base da força, e isso levou as duas classes à guerra, esta ficou historicamente conhecida como Guerra do Contestado e envolveu grande parte do norte catarinense e algumas cidades do sul do Paraná.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Relato da Guerra do Contestado

Escola de Ensino Médio Professor  Roberto Grant
Professora: Elizete Mainardes Appel
Disciplina: Língua Portuguesa e Literatura
Série: 3ª06
Atividade: Escrever um Conto, Crônica ou Narrativa abordando tema Contestado


Por: 
Andressa Kaisekamp, 
Bianca Milnitz, 
Hannah Baum de Souza, 
Julia Voltolini,
Louise Nazário Bueno Franco e 
Stefany Samara de Lima.

Eu, Maria Sebastiana tinha apenas 8 anos, morava com meus pais e mais 6 irmãos em uma pequena cidade de Santa Catarina chamada Irani. Lembro que naquela época meu pai contava que havia uma disputa de um pedação de terra entre Paraná e Santa Catarina, a gente não entendia bem, mas sabia que era pra ficar esperto e ter cuidado com gente estranha.
Eram tempos difíceis para as crianças. Todos os dias quando amanhecia, eu, como irmã mais velha, ajudava minha mãe na roça, enquanto meu pai trabalhava na construção da tal estrada de ferro, e depois, na madeireira. No tempo que meu pai trabalhou lá, a gente tinha remédio de vidrinho quando ficava doente e ia na igreja.  Mas o que a gente mais gostava era o cinema, com aquele pano branco bem grande e as pessoas dos filmes, grandes também. No começo a mãe ficou com medo e não queria deixa a gente ir, daí o pai falou que era besteira dela e que os patrões também iam. Era maravilhoso, não me cansava de ir. Os adultos falavam que a estrada de ferro e a madeireira iam ser uma grande coisa, que o trem ia fazer crescer a cidade, mas nada disso aconteceu, só trouxe coisas ruins.
Certo dia, quando voltava pra casa à noitinha, encontrei minha mãe choramingando na varanda. Os vizinhos e peões da fazenda do coronel passaram avisando que uma guerra ia acontecer. Não tardou muito e apareceram uns homens dizendo que tínhamos apenas três dias para sair da nossa casa. Meu pai, furioso pelo ocorrido, saiu pra fora de casa e gritava que ninguém ia tirar as terras dele. Nunca me esqueço dessa cena. Como minha mãe tava muito nervosa fui preparar a janta para o resto da família, não sabia o que nos aguardava, como seria o dia de amanhã ou até mesmo se essa seria nossa última refeição.
No dia seguinte, quando levantei, papai já tinha saído pra tentar resolver a questão. Mas chegou em casa sem notícias boas. Papai sabia que, assim como muitas famílias, ele iria perder suas terras ficando sem ter onde morar e nem como sustentar sua família.
Dias se passaram e os homens voltaram armados até os dentes. Tivemos que sair correndo, fugindo pelo mato adentro pra se salvar.  Após muito tempo andando, com fome, chegamos a Canoinhas, onde encontramos um grupo de pessoas seguidores do Monge José Maria, um curandeiro que todo mundo dizia ser um homem santo.
 
Ficamos com eles passando os dias e as noites pois o pai não podia mais trabalhar na madeireira e todo mundo contava que a guerra tava feia. Soldados matavam os sertanejos que não queriam sair de suas terras. Os fazendeiros também queriam mais terras e matavam quem não saísse. De um lado quem tinha armas, do outro os homens simples lutando com espadas de madeira.
Uns tempos depois ficamos sabendo que os coronéis da região mandaram soldados do exército para acabar com o movimento daquele monge, tendo sido assim a morte daquele que era uma pessoa tão boa.
A construção da tal estrada de ferro parou, a madeireira tomou conta de tudo. E pra mandá os caboclos  embora, trouxe até uns tal de pistoleiro de outro lugar que se vem de navio. Dizem que esses caçavam as pessoas como bichos.
Vivemos assim até 1916 porque as tropas de soldados acabaram com tudo. Meu pai e 2 irmãos morreram. 2 ou 3 anos depois, minha mãe também se foi por causa da saúde, por não ter remédio pra tomar e comer pouco.

Hoje moro em Caçador, cidade de muita gente bonita que se construiu com pessoas que sobreviveram a essa triste guerra. As lembranças ainda me atormentam durante os dias, depois de me casar fui abençoada com 2 filhas e 5 netos e ver a família que construí nos últimos anos é o que me mantém viva e com muita alegria.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

CARTAS EM MÃOS ERRADAS

Estado de Santa Catarina
Secretaria de Estado da Educação
25ª Gerência de Educação
Escola de Ensino Médio Professor Roberto Grant
Professora: Elizete Mainardes Appel
Disciplina: Língua Portuguesa e Literatura
São Bento do Sul, Março / 2015
Série/Turma:3ª04



Texto de: Alexandre Andruchechen, Allan Giordani, Ana Paula Dums,
Ellen Pasternak, Natali Ruzanowsky e Thais Diana Ferreira





CARTAS EM MÃOS ERRADAS

Catarina era uma bela moça, pele branca, mais branca do que as nuvens que cercavam o límpido céu de Santa Catarina, e os olhos azuis, tão azuis quanto o próprio céu que contrastava com sua pele. Seus cabelos loiros e ondulados que, quando batia uma brisa, voavam de uma forma tão delicada que até mesmo uma borboleta confundia-se. Pobre Catarina, tão bela por fora mas, tão triste por dentro. Se seu interior fosse como o exterior poderia até mesmo ser uma representação divina. Com sua família querendo decidir seu futuro amoroso, angustiava-se e vivia com uma dor que parecia ser eterna e, sua revolta podia ser traduzida através de seu olhar de desprezo com que olhava para qualquer um que lhe cruzasse o caminho.

Catarina é filha única de Francisco e Lúcia Schwedler. Seus pais são donos de uma indústria madeireira. A família Schwedler morava numa cidade às margens do Rio Iguaçu, chamada Irineópolis. Uma cidade planejada, com ruas largas e alongadas, que denotam traços de sua colonização rica em diversidade cultural e étnica. Entretanto, a realidade era outra. Nessa época a Guerra do Contestado trouxe consequências imediatas, tais como a chamada “zona privilegiada”, que foi a ocupação de terras sem levar em conta posses ou sesmarias. Isso aconteceu porque essas terras seriam utilizadas para a construção da ferrovia que ligava São Paulo até Rio Grande do Sul.

Não muito longe dali, em Mafra, Nestor Maurer preocupava-se com essas posses indevidas das terras. Para ele, a preocupação era intensa, pois, Nestor era herdeiro de fazendas enormes, porém, não entendia muito sobre “produção agrícola”. Como não era desse ramo de negócio, tinha medo de perder tudo o que herdara e arruinar o nome da família. Nestor também estava aflito por seu filho, Otto Maurer, pois ele não conseguia encontrar uma noiva para que pudesse formar família e manter-se no mesmo patamar.

Certo dia, Nestor estava no trem, no retorno de uma viagem de negócios e encontrou Francisco, pai de Catarina. Travaram uma conversa corriqueira, comentam sobre seus filhos e, percebem que se Catarina e Otto se casassem, aumentaria o negócio de ambas famílias, mantendo o dinheiro deles, assim, com as mesmas condições financeiras por vários anos, décadas... Francisco, um homem ambicioso, percebeu que sairia beneficiado, nem pensou na felicidade da filha, fechou o negócio.

Quando Nestor chegou à sua fazenda, anunciou o casamento planejado ao filho e ele gostou da ideia. Ele se casaria dali a quatro meses.

Catarina, diferente de Otto, ficou com um pé atrás e angustiada por não conhecer o noivo. Resolveu conhecer-lhe melhor e escreveu a ele uma carta. Eis a carta para seu futuro noivo:

Quem és tu? Quem és, eu não sei, sei que tu se chama Otto, sei filho de quem és, sei também com o que trabalha, o que estuda e sei também de onde és. Porém eu não sei quem é você. Não sei se gosta de chá ou café, se gosta de ler e se toca algum instrumento. Não sei como foi tua infância, do que costumava brincar, não sei se gosta de cantar e nem mesmo conheço o som da tua voz, nem mesmo sei como é seu sorriso. Por isso lhe envio está singela e breve carta, e mando também a você uma foto do meu rosto, para que possamos nos conhecer. Saber coisas simples e toscas, um do outro, o que faz toda a diferença! Quero saber tudo sobre você, das coisas mais bobas as mais sérias, quero saber como passa teus dias, o que costuma fazer...
Quero te conhecer, afinal nos casamos em quatro meses! Até breve e com carinho.
                                                                 Catarina Schwedler


Quando Catarina terminou a carta, procurou a foto de que mais gostava e colocou junto à carta, fechou o envelope, selou e enviou.

A foto de Catarina fez a carta desgastar-se até chegar ao carteiro. O carteiro por sua vez, era um homem simples, humilde e de boa educação. Vivia na mesmice, recebendo cartas e entregando-as. Era chato acordar e saber que mais uma vez seu dia basearia se em ver um monte de papéis sem graça, porém era isso que lhe garantia sustento. Como a carta foi mal selada, a foto de Catarina caiu, obrigando o carteiro a repô-la dentro do envelope. Porém, ele se interessou pela moça da foto e resolveu ler a carta, mesmo sabendo que isso seria um grande desrespeito e que pudesse perder seu emprego.

O carteiro, cujo nome era Paulo de Lima, mais conhecido como Lima, era alguém sem muito luxo, moreno de olhos castanhos, usava quase sempre as mesmas roupas e o mesmo sapato, quando não se estava com o uniforme do trabalho. Não ganhava muito para a época, mas dava para colocar comida em casa. Lima tinha vinte e seis anos, morava sozinho em Mafra e nunca se apaixonou. E não imaginava encontrar um amor nas poucas condições que tinha... Até encontrar a carta de Catarina.

O carteiro, encantado com a beleza da moça e das palavras, decide responder a carta. Lima, um homem sem muitas palavras, humilde, decidiu mandar-lhe apenas alguns versos:

Não sei como és em carne,
Mas já sei a maneira que soam as palavras da tua boca.
Também não sabes como sou mas pegue essas palavras como uma imagem.

Catarina ansiosa pela chegada da carta, lê o belo poema que ali estava escrito e sente-se atraída pelo homem que lhe escreve.

Três meses se passam desde as primeiras cartas... Lima percebe que está apaixonado e é algo recíproco, então, sente-se culpado por fingir ser alguém que não é. Decide revelar sua verdadeira identidade a Catarina. Depois de ter ficado horas olhando o pedaço de papel no qual escreveria toda a verdade, Lima entende que apenas será feliz se puder conhecer Catarina.

Querida Catarina! Sei que deves estar esperando mais um de meus poemas, mas hoje envio-te esta carta por outros motivos.
Não sei bem por onde começar, meu coração se parte em mil pedaços apenas em pensar o quanto irei magoá-la e talvez perdê-la para sempre mas preciso dizer-te. Menti para ti minha Catarina. Sim, eu sei, não fui honesto contigo, mas se você soubesse quem realmente sou, onde trabalho e de onde venho, desistirá de mim. Sou humilde, e sempre fui com minhas palavras, vou revelar a ti que não sou rico, não tenho muito luxo, e por fim, não tenho família. Sou um carteiro, simples e sem graça, não sou quem tu imaginavas que fosse.
Sou o contrário de ti, você é linda, uma moça rica e com classe e além disso, é bela, pura. Me apaixonei por ti desde que vi sua foto.
Mas querida, mesmo não merecendo isso, gostaria de fazer-te apenas um pedido, gostaria de vê-la, tocá-la, sentir-te. Quero marcar um encontro nem que seja o primeiro e o último. Poderíamos nos encontrar na estação de trem?
    Paulo de Lima

Catarina, ao receber a carta, não entende o que aconteceu nos últimos meses, o casamento, as cartas respondidas e nem mesmo o que sente. Fica angustiada com tudo, mas, percebe que está apaixonada pelo homem que lhe enviara cartas nos últimos meses. Iludida, decide ir ao encontro. No dia marcado, Catarina acorda cedo, antes de todos em sua casa, escapa por algumas horas e vai ao encontro de seu amor. Ao chegar à estação de Irineópolis, toma o trem e senta-se à janela. Seguindo em direção à estação de Mafra, admirou as belas paisagens entre as cidades. Observou também, tropas e alguns caboclos...

Nove horas em ponto, Catarina chega na estação de trem de Mafra. Ao descer do trem, encontra um banco próximo, senta-se e fica aguardando avistar o homem com as roupas combinadas: calça escura e camisa branca. Depois de alguns minutos, um homem senta-se ao lado dela. Ao olhar para o seu rosto, Catarina sente uma paixão, então, confere as vestimentas do homem. Ele estava usando uma calça escura e uma camisa branca. Catarina sorriu para o homem e o homem percebeu que era sua amada.

Lima percebeu que era Catarina a moça sorrindo para ele, então, entregou a flor que encontrou a caminho da estação e disse:

— Não sabes como estou feliz em te ver, Catarina!

Catarina um pouco confusa, porém, muito apaixonada, lhe respondeu:

— Que bela flor! E que belos poemas você me mandou... Estou me sentindo feliz aqui ao seu lado também, Paulo de Lima.

Depois de toda a situação se desencadear, era hora da despedida. Ambos não queriam voltar a sua rotina. Os dois queriam continuar ali, no banco da estação de trem, conversando por horas e horas. Sem lembrar de tudo o que estava acontecendo: a Guerra do Contestado e principalmente, o casamento arranjado de Catarina com Otto.

Catarina, ao lembrar-se de que havia escapado de casa, percebe que está na hora de voltar. E pensou em contar ao pai sobre Lima. Mas, ela sabia que seu pai, ambicioso, não daria a mínima, simplesmente pediria para a filha esquecer dessa paixão sem lucro algum para a família. Então, preferiu deixar tudo em segredo por mais um tempo...

Algumas semanas depois, a rotina de Catarina e de Lima voltou ao normal. Porém, várias cartas foram trocadas entre os dois. Lima, nunca se sentiu tão vivo e feliz em sua vida e, Catarina estava tão apaixonada que nem se lembrava de Otto. Porém o casamento estava próximo e seu pai estava pressionando-a para comprar o vestido de noiva juntamente com sua mãe. Catarina percebe, então, que está na hora de jogar tudo para o alto e correr atrás de sua felicidade. Decide fugir alguns dias antes do casamento e se encontrar com Lima. Planejou tudo e então mandou uma carta combinando. Ele, é claro, aceitou.

Lima estava ansioso, Catarina mais ainda. No dia marcado, os dois se encontraram naquele mesmo banco do primeiro encontro. Se abraçaram e, partiram em uma viagem de trem. Não sabiam nem o destino da viagem, apenas embarcaram no trem e seguiram rumo à felicidade. Passaram por várias cidades, admirando a beleza delas, das estradas e também admirando o romance que crescia entre eles. Nenhum dos dois se arrependia de ter largado tudo para fazer essa loucura. Lima, por exemplo, ganhou uma nova vida e Catarina, finalmente entendeu o que faltava em seu interior, faltava amor verdadeiro.

Ao estarem quase chegando à estação de trem de Chapecó, o trem parou. Um barulho estrondoso fez todos os passageiros cobrirem os ouvidos, sem contar o susto. Até o trem ficar imóvel e silencioso, todos estavam alvoroçados tentando entender o que aconteceu. Lima estava preocupado porque viu Tropas do Exército alguns quilômetros antes. Alguns minutos depois, a porta do trem se abriu e o General entrou. Olhou cada passageiro, cada detalhe. Era a Tropa do Exército que viera evitar emboscadas e descobrir se ali na região havia rebeldes a serem aprisionados.

O General percebeu que Lima estava muito incomodado com a situação e foi questioná-lo. Lima sentiu medo ao perceber que o General se aproximava. Mas, não era medo de ser preso ou de morrer, mesmo sabendo que não devia nada a ninguém e que nunca fez nada errado, estava com medo por sua amada. Catarina não poderia ser presa ou sofrer alguma consequência por conta de seus atos. Lima sabia que Catarina era filha de um homem rico e que o General poderia insinuar que ele a sequestrara. Em um movimento brusco, Lima levantou-se e ficou cara a cara com o General, este disparou um tiro como forma de defesa que, infelizmente, acertou o peito do carteiro. Lima faleceu em frente à amada, sem nem poder se despedir dela.

Catarina estava em estado de choque. Chorava e chorava, não compreendia o que havia acontecido. O General pediu a ela desculpas, explicou o que viera fazer no trem. Pensou que Lima era um rebelde por conta de seu olhar medroso e ainda mais, por conta de seu movimento perigoso em direção ao chefe militar. Como ato de desculpas, o General avisou Francisco e Lúcia Schwedler, os quais ficaram entristecidos e até com raiva, pois Catarina arruinara o futuro casamento. Os pais de Catarina nem imaginavam que ela estava envolvida com outro homem. E também porque ela estava longe e, agora, completamente enlouquecida.

Quando Catarina retornou à sua casa, seus pais foram rigorosos com ela. A isolaram em um casarão onde ela passou o resto de sua vida sozinha. Tinha frequentes ataques de loucura sempre que se lembrava do seu amado Lima.

As duas famílias, Schwedler e Maurer, é faliram depois de alguns anos pois não conseguiram o investimento que precisavam para se manter numa classe alta e, a Guerra do Contestado foi trazendo insegurança até mesmo para os proprietários de muitas terras.

Atualmente, o casarão onde Catarina morou, em Irineópolis, depois de tudo isso acontecer, é uma viagem ao passado.

Catarina nunca se arrependera de ter sido apaixonada por Lima mas, muitas vezes, pensou como tudo teria terminado, se ela não tivesse mandado aquela primeira carta.